"Eu só pensava em morrer" Entrevista realizada em maio de 1998
D., 26 anos, conta como tentou se matar: “engoli cento e sessenta comprimidos de vários remédios: Rohipol, Valium, Dorminid, Dalmadorm. Tomava-os de dez em dez, bebendo água, e desmaiei cinco minutos depois”. Não se recorda da data da tentativa: “acho que foi no começo do ano passado”, diz com insegurança. Ficou quatro dias internado na UTI do Hospital Samaritano. Durante esse período, por várias vezes acordava e via o quarto rodando, depois arrancava a sonda e a máscara de oxigênio, pedindo para morrer. Teve que ser amarrado pelos médicos na cama.
Como tantos outros suicidas, D. afirma que desejava, com seu ato desesperado, fazer um protesto contra uma sociedade na qual não conseguia se adaptar. Queria também dar um ponto final nos seus sofrimentos: o fim de um noivado de dois anos, as brigas constantes com a família e, principalmente, os sintomas de uma neurose obsessiva-compulsiva. Doença que ainda o faz perder o controle da própria mente: “às vezes sinto medo, pânico, penso um monte de coisas ao mesmo tempo, e depois fico com a idéia fixa de que vou morrer sufocado”. Apesar de saber que tais pensamentos não fazem sentido, não consegue controlá-los. Faz uma consulta por semana com um psicólogo (R$ 90,00 por hora de sessão) e toma diariamente quatro medicamentos: Rivotril e Neuzine (calmantes), Anafranil (anti-depressivo) e Neuleptil (sonífero).
Arrepende-se do que fez: “foi a maior bobagem que já cometi na vida”. Dificilmente sai de casa; a conta total do tratamento no hospital chegou a R$ 5.300,00, obrigando D. a vender seu carro, um Uno modelo 95, para custear as despesas. De qualquer modo, não há tantos motivos para sair. Por causa da doença, seu analista o proibiu de trabalhar ou retomar os estudos. A maior parte de sua rotina diária consiste em cuidar de uma horta no sítio onde mora com a família (em Arujá), orar e ler a Bíblia. Tornou-se evangélico como sua mãe, e melhorou seu relacionamento com os pais.
Perguntado se mudou seu conceito a respeito da vida após a tentativa de suicídio, D. conclui: “mesmo que você esteja mal, a única solução para a vida é viver”.
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São Paulo, 25 de maio de 1998
© Alexandre Inagaki
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