Axé Music tem o seu valor

Ou: o zen-budismo da "Dança da Manivela".

Antes de fevereiro, sempre encarei a axé music como uma criação satânica destinada a sodomizar meus ouvidos sem dó nem piedade. Mas o carnaval me deu o álibi ideal para que eu aprendesse a apreciar esse gênero musical. É certo que o meu estado de espírito colaborou. Nada como uma solteirice recém-adquirida e algumas latas de Miller a mais pra gente aprender a valorizar "canções" com versos lapidares como: "o pinto do meu pai fugiu com a galinha da vizinha/ esse pinto não é mole/ esse pinto é safado". Letras com a sutilidade de hipopótamos no cio.

Ora, será que não estamos sofrendo de preconceitos estéticos? Afinal de contas, Caetano regravou Peninha e Odair José, e Maria Bethânia, "É o Amor" de Zezé di Camargo. Se eles podem gostar dessas canções, por que não darmos uma chance à tal da axé music? Vasculhando o repertório dessas bandas, até conseguimos pinçar algumas melodias e letras palatáveis, como em "Prefixo de Amor" (Bamda Mel) e "Deus é Brasileiro" (Terra Samba). O bicho não é tão feio quanto pintam, afinal.

Contudo, deixemos bem claro: a avassaladora maioria do repertório desses grupos é de uma mediocridade vergonhosa. Asa de Águia, É o Tchan, Ivete Sangalo ou Netinho jamais ocuparão o espaço de minha coleção de CD's que está destinado a João Gilberto, Cartola e Elis Regina. Mas o fato é que esse tipo de música não nasceu para ser ouvido sentado na poltrona. Axé music é um som que só faz sentido servindo como trilha sonora para estúpidas e divertidíssimas coreografias a la Macarena. Encaradas sob esse ponto de vista, músicas idiotas ganham sua razão de existir. Um verso como "no balanço da cama, nhéc nhéc róinc róinc", por exemplo, é para mim a mais interessante utilização de onomatopéias na MPB desde o samba-enredo da Império Serrano em 1982, "Bum Bum Praticumbum Prugurundum". A imbecilidade dessas letras, na verdade, faz com que concentremos nossas atenções para o batuque frenético das canções.

Quem está numa pista de dança almeja a transcendência do não-pensar dos mestres budistas. Deseja libertar sua mente de todo e qualquer pensamento, tornar o ser todo fibras, músculos e carne. Afinal de contas, todos nós merecemos, precisamos de um instante de alienação sem culpa, esquecendo, nem que seja por um mero momento, de toda a gama de mazelas e infortúnios que nos é despejada diariamente pelos jornais.

Dançar ao som de axé music, enfim, representa férias aos nossos neurônios; é deixar que o corpo comande todas as nossas ações, fazendo com que entremos em uma outra dimensão, longe de toda a rotina estressante que vivemos.


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São Paulo, 05 de março de 1999

© Alexandre Inagaki
ainagaki@uol.com.br