Às Vezes Sempre
Às vezes as idéias pululam em minha cabeça como turistas desavisados descalços saltitando pelas areias estupidamente quentes de Ipanema.
Às vezes imagino como seria melhor se eu tivesse a capacidade dos budistas de libertar a mente de qualquer pensamento, mergulhar fundo em um mantra e flutuar na paz branca e translúcida de quem medita, hare hare aouuummmmm...
Às vezes penso muito, penso penso penso DEMAIS, centenas e centenas de pensamentos simultâneos ricocheteando pelos sete buracos da minha cabeça, zunindo feito papa-léguas pelo grand canyon dentro de mim, e me perco inutilmente tentando alcançá-los.
Às vezes chego a uma conclusão definitiva. Mudo de idéia trinta segundos depois.
Às vezes concebo Setenta Cavalos Alados Parindo Luzes Dodecafônicas pelo Céu de Liverpool Enquanto um Mulher de Beleza Exata Como os Quadrados de Mondrian Pisoteia Baratas Kafkianas Afiliadas à Liga das Pamonhas de Piracicaba Dissidentes Daquelas que Sonhavam com a Conquista da República de Vladivostok Entre Tabuleiros Sanguinolentos de War e Reproduções em Silk-Screen do Vice-Presidente do Reino Utópico dos Amantes Crucificados Que Se Flagelavam Enquanto Assobiavam Canções Empoeiradas de Cavaleiros Medievais Embevecidos com as Imagens Vagas de Ninfetas de Elevador Trajando Calças M. Officer e Saias com a Estampa Transcendental dos Pescoços de Modigliani.
Às vezes entupo minhas narrativas com piadas inconseqüentes, metáforas rebuscadas, digressões gratuitas, de forma que me esqueço completamente do que estava escrevendo, e aí jogo tudo fora e deixo só as piadas.
Às vezes penso que deve haver um inferno ao qual são condenados todos os idiotas que deixaram um amor morrer, e eu, com certeza, serei flambado num caldeirão ad eternum, ouvindo Backshit Boys e assistindo a programas evangélicos no canal comunitário do limbo.
Às vezes meses parecem dias. Planos de anos são utopias.
Às vezes tartamudeio, gaguejo, vocifero, liquefaço, justaponho, defeco, repito, repito, latejo, trompeteio, esporro, grogrolejo, tremeluzo, redescubro, alicio palavras; depois, reescrevo-as.
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São Paulo, 30 de setembro de 1999
© Alexandre Inagaki
ainagaki@uol.com.br