Perfil

Mas quem é esse tal de Alexandre Inagaki?


I


Quando você é criança, pensa que poderá fazer de tudo: ser astro de cinema, cientista maluco, cantor das multidões, líder revolucionário. Tudo seria mera questão de tempo, e assim alimentávamos utopias enquanto esperávamos o sono chegar, fingindo, para nossos pais, que já estávamos dormindo.

Crescer é um processo no qual pouco a pouco vamos nos desvencilhando desses sonhos, acuados pelos espinhos do tal mundo adulto. Tornamo-nos "maduros", "responsáveis", e assim vamos largando planos pelo caminho. O grande perigo é o de acabarmos nos concentrando em apenas um: como arranjar dinheiro para pagar as contas.

Ainda não cheguei a tal ponto trágico, já que ainda almejo trabalhar com algo relacionado com o que mais aprecio fazer, que é escrever. Enquanto isso, vou mantendo os pés no chão trabalhando como caixa de banco, enquanto miro as estrelas lá no céu.

II


Disse meu pai: "minha consciência é a minha religião". Meu pai sabe das coisas.

III


EU ODEIO: ver o coiote correndo inutilmente atrás do papa-léguas; escutar caminhões de gás assassinando a "Pour Elise" de Beethoven; o pepino que colocam no meio do cheesebúrguer do McDonald's; o dinheiro, quando não o tenho; clones tupiniquins do Jerry Springer; grupos musicais cujo instrumento principal é a bunda; pessoas falando mal das outras; falta de imaginação; mesas redondas discutindo "ad infinitum" se tal lance foi pênalti ou não; filas de banco; ter de recorrer ao suporte técnico do UOL; ver no meu monitor a maldita mensagem do Ruindows 95, "você executou uma operação ilegal e seu programa será fechado"; falar em público; amores que se dissipam.

IV


Minha infância não teve pipas, não corri atrás de balões, não rodei pião nem joguei amarelinha. Brinquei de pega-pega, passa-anel e esconde-esconde, e joguei bafo com as figurinhas do Paulistinha, que trocava por notas fiscais. Mas as coisas que realmente marcaram meus "anos incríveis" foram Atari, cubo mágico, Aquaplay e Merlin.

Quando estudei geografia no primário, conheci países como a União das Repúblicas Socialistas Soviéticas. Passei uma noite inteira acordado depois que assisti a "The Day After". Desconhecia refrigerantes com tampinha de rosca. Meu vocabulário incluía palavras como "vitrola". Havia um televisor Telefunken P&B aqui em casa que, quando desligado, permanecia com um ponto branco brilhando no meio do monitor por uns 15 segundos. Controle remoto era um cabo de vassoura. O primeiro computador que tivemos foi um TK-85, cujos programas eram gravados em fitas-cassete. Todos os meus avós estavam vivos.

V


26 anos, 1m80, 78 kg, sapato 40, 207 CD's (contabilizados em agosto), 0 carro, 1 mãe e 1 pai geniais, 2 irmãos pentelhos e incríveis.

VI


Nasci em Campinas, em 27 de julho de 1973. Mudei-me pequeno de lá; passei por Salvador, mas moro em Sampa City desde 1978. Fiz o primário num colégio denominado Raio de Sol, que ficava numa rua chamada Monte Alegre, que lindju. O colegial foi no Bandeirantes. Depois passei por faculdades de adm (FGV), letras (USP) e cinema (FAAP), sem ter completado nenhuma (virei PhD em vestibulares). Curso atualmente o 3. ano de jornalismo na Cásper Líbero.

VII


Minha primeira experiência com escrita foi traumática. Eu devia ter uns 7 anos, e a tia Cláudia nos deu a seguinte tarefa escolar: escrever uma carta de Dia das Mães. Queria dizer coisas bonitas para minha mãe, mas as idéias ricocheteavam no meu cérebro sem ganhar forma. Na época não conhecia Hemingway, e portanto não me veio a idéia de enfiar uma bala na cabeça; o que fiz foi desatar a chorar. Ah, como eu era burro.

(Hoje em dia continuo burro, só que mais experiente).

VIII


LIVROS QUE EU GOSTARIA DE TER ESCRITO: "Jogo da Amarelinha", de Júlio Cortázar, "A Festa", de Ivan Ângelo, "Afinidades Eletivas", de Goethe, "Cem Anos de Solidão", de Gabriel Garcia Márquez, "Dom Casmurro", de Machado de Assis, "Uma Faca Só Lâmina", de João Cabral de Melo Neto, "Palácio da Lua", de Paul Auster, e "Virgens Suicidas", de Jeffrey Eugenides.

IX


GOSTO DE: pessoas que saibam rir de si mesmas; conversar com amigos até altas horas da madrugada, seja numa mesa de bar, por telefone ou por ICQ; ver pôr-do-sol; ouvir meus CD's da Legião até acabar as pilhas do Discman; pudim de leite; justaposições absurdas; passar domingos chuvosos assistindo às séries da Sony; tocar bateria; tomar banho ouvindo Aretha Franklin ou Chemical Brothers; sentir o cheiro da grama depois da chuva; mulheres de cabelo chanel; ligar a TV às três da manhã e encontrar um filme do Capra, Wilder, Hitchcock, Lubitsch ou Truffaut; pizza requentada na chapa; construir alicerces debaixo dos castelos que ergo no ar.

X


Já plantei uma árvore, já vivi um amor, já escrevi um livro. De poesias, que ainda não publiquei (e nem corri atrás) por entender que poemas são vinhos; só tempo dirá quais envelhecerão bem e quais não passam de vinagre. Falta eu pular de pára-quedas, visitar a catedral de Gaudi, encontrar uma cúmplice para toda a vida, ver um roteiro meu ser filmado e presenciar o dia em que todos os homens se entenderão (não me culpem por sonhar alto às vezes).

XI


"Não sei falar de mim mas falo
Palavras se escrevem e eu me calo
O tempo é soco e o soco não sara
Rara é a vida e o amor é a máscara
Língua é bala se míngua é a fala
Mas não tenho certeza de nada

Não sei falar de mim mas falo
O tempo se escreve e eu me calo" (versos de 1993)

XII


Sou torcedor do Guarani. Possuo, portanto, uma profissão de sangue, coisa para poucos e privilegiados iluminados, cujos corações foram tocados por algo maior e inexplicável.

Ser bugrino é sofrer, e gostar desse sofrimento; é amor em sua forma mais radical e feliz. Sei perfeitamente que torcer para o Bugrão não é para qualquer um; é preciso ser tocado por uma fagulha divina. Por isso nossa torcida é pequena, o joio do trigo. Se Deus quiser, terei o privilégio de ser enterrado com uma bandeira do meu Guarani cobrindo meu caixão, e levarei até o outro mundo minha paixão futebolística.

O amor inspira. E sou completamente ins-pirado pelo Bugrão. O amor desnorteia, e sou totalmente embriagado pela paixão por meu time. O Guarani não se satisfaz com um mero hino; possui ópera.

XIII


Sou multi-instrumentista (toco reco-reco, triângulo e campainha), fechador de envelopes bilíngüe (uso duas lambidas), considero que homens e mulheres dificilmente chegam a um consenso (embora todas as tentativas de entendimento sejam deliciosas) e falo abobrinhas pra caramba (além de gostar muito de usar parênteses).

XIV


Namorei por 3 anos e meio uma mulher que conheci pelo computador. Isso foi anterior à chegada da Internet, ainda na época do videotexto. Éramos de cidades diferentes, o que me faz pensar em como a tecnologia é incrível. E o fato é que, a despeito da frieza virtual, a Internet tornou-se um poderosíssimo instrumento que possibilita a aproximação de pessoas com interesses em comum, por mais díspares que estes possam parecer: Arquivo X, cinema dinamarquês, Looney Tunes, bandas pop dos anos 80, trotskismo, Joseph Campbell, Sandman...

Por detrás dos monitores, modems e CPU's, existem corações que amam, ferem, iluminam, redimem, vivem. Isso jamais pode ser esquecido.


@ Alexandre Inagaki



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